Writing

TWO AT TWO AT THE CEMETERY

It was 2PM on a Saturday, June.
I agreed to have a meal with a friend at the Graveyard. I got there first, and I still had time to talk a bit to the gravedigger, who has a maggot crawling up his back as he opens the gate for me.
- "Today is a beautiful night!" Said the gravedigger.
- Thanks! - I replied, as if I was responsible in some way for that.
I headed toward the Mrs.Clotilde de Almeida grave, loved by her husband, son and daughter-in-law. She has a bell on a pillar, next to the tombstone.
On other occasions, we have had the opportunity to rang several times, but as no one has ever opened, we decided to stop.
We chose this destination for our picnics because the Mrs.Clotilde de Almeida grave, loved by her husband, son and daughter-in-law, is the one with the best view over the city.

Several times I wondered if it would be disrespectful to sit here, eat, talk and see the sights ... But it would probably be what I would do at her house, if she were alive, and I knew her, of course!
Besides that, we always leave everything clean when we go away.
I never brought her a flower. Not because I do not esteem her, I imagine that Mrs.Clotilde de Almeida, beloved by her husband, son and daughter-in-law, was an excellent lady, I just have no need to please myself or the others here. I think of her whenever I sit down here, I talk to her whenever I agree to meet my friend, and I hope this is already a tribute to her memory.
My friend is late and I am already hungry, but this time it's his turn to bring the food. Usually, we always bring fruit. We both have trees in the orchard. I usually bring citrus, an orange has never hurt anyone. They say that in the morning it is gold, in the afternoon is silver, and at night it kills. However, I am not yet a neighbor of Mrs.Clotilde de Almeida, loved by her husband, son and daughter-in-law.

- I bet you're death starving! - my friend jokes, appearing from behind me.
- How creative! Was that the first thing that occurred to you, you dry? - I reply.
- Wait until you taste this cantaloup! You're going to see me salivate! - He says, as he removes a cantaloup from a plastic bag.
- What a pleasant sight! - I answer ironically as I get half a cantaloup along with a dessert spoon.
- Pleasant is this cantaloup! Made of honey, color of lioness.
- Oh really? Are you going to continue making a joke out of the desert at every turn? You're very happy, what's happening?
- My nephew was born! The kid is very cute! He's going to be a pianist! - Exclaimed my friend enthusiastically.
- He just arrived to this world, how do you know he's going to be a pianist? Was it expelled from the womb directly to the keys?
- My sister listened to Mozart for nine consecutive months! - My friend replies in the most natural tone, as if it were the most obvious thing in the world, a logical reasoning.
- My mother listened to Madonna. You do not see me offering a table dance and/or my virginity to anyone ... - sarcastically I reply.

- Do not be disgusting! It's such a beautiful night! - He pleads looking at the moon.
- I prefer the sunset.
- I told you I'm at work during sunset.
I completely ignore my friend's last statement.
- Do you think that the beauty of the sunset relieves the work we all have to do to support ourselves or having a job makes us enjoy the sunset with the hope of a better day?
- The first. - He responds without hesitation.
- Because?
- Imagine that the sunset represents all the good things in life: falling in love, fulfilling your dreams, laughing with friends, doing what you like, having a child ... these are the things that make us want to continue to struggle in the existence that we do not ask for, in the pain we do not want, in the suffering of others ...
- How deep! I think you found oil! - I'm joking with him.
- Then do not tell the Americans! - My friend answers in a monocordic tone.

- Maybe they would make a hole in Spain and think they were in the right place.
- And the official version for the media would be "The liberation of the Spanish people from the dictatorship!" While American soldiers burned magazines like "Hola!" With the face of Letizia.
- If Portugal were a monarchy, I would vote for Julia Pinheiro to be Queen! - I exclaim with joy.
- What do you mean?! The succession, by right, belongs to that gentleman with the mustache, who seems to be always with the flu, and who's children do not resemble him at all.
- He's always with the flu. He lives in Bragança! It's always cold there!
- That's a myth! It is like the story that the Algarve is always sunny.
- Touché! - I have no subject.
A few seconds of silence between us.
- Look, - he says - I have to leave soon. I gotta feed my Guinea Pigs.
- You must not feed them after midnight !! - I exclaim.

- Those are the Mogwais! And they do not exist!
- You also call them "Guinea Pigs" and you live in Bobadela.
- But I'm moving soon. - my friend replies in an arrogant tone.
- If you need help, say! - I offer.
- Of course! Thank you.
- So let's go! - I got up - Did you bring a bag for the trash?
- No ... I forgot!
We shrugged in silence and walked away.
- Bye, Mrs.Clotilde! To the next! - We say goodbye in chorus.

Dois às duas no cemitério

Eram duas da manhã de um sábado de Junho.
Combinei de comer uma meloa com um amigo no Cemitério. Cheguei primeiro que ele, ainda falei um pouco com o coveiro, que, enquanto uma larva lhe trepava pelas costas, me abria o portão.
- Hoje está uma bela noite! – disse o coveiro.
- Obrigada! – respondi, como se fosse responsável de alguma forma por isso.
Segui em direcção à campa da D.Clotilde de Almeida, amada pelo esposo, filho e nora. Ela tem uma campainha num pilar, ao lado da lápide.
Em outras ocasiões, tivemos a oportunidade de tocar várias vezes, mas como nunca ninguem abriu, deixámos de o fazer.
Escolhemos este destino para os nossos “pic-nics” pois, a campa da D.Clotilde de Almeida, amada pelo esposo, filho e nora, é a que tem a melhor vista sobre a cidade.

Por várias vezes me perguntei se seria desrespeito sentar-me aqui, comer, falar e ver as vistas… Mas seria, provavelmente, o que faria em casa dela, se ela fosse viva, e, eu a conhecesse, claro!
Além de que, nós deixamos sempre tudo limpo quando vamos embora.
Nunca lhe trouxe uma flor. Não porque não lhe tenha estima, imagino que a D.Clotilde de Almeida, amada pelo esposo, filho e nora, tenha sido uma excelente senhora, apenas não tenho necessidade de me agradar, nem aos outros que por aqui passam. Penso nela sempre que aqui me sento, falo com ela sempre que combino encontrar-me com o meu amigo, e, espero que isso já seja uma homenagem à sua memória.
O meu amigo nunca mais chegava e eu já estava com alguma fome, porem, desta vez ficou ele de trazer a comida. Geralmente, trazemos sempre fruta. Ambos temos árvores no pomar. Costumo trazer mais citrinos, uma laranja nunca fez mal a ninguém. Dizem que de manhã é ouro, à tarde é prata e à noite mata. Contudo, ainda não sou vizinha da D.Clotilde de Almeida, amada pelo esposo, filho e nora.

- Aposto que estás morta de fome! – graceja o meu amigo, aparecendo por trás de mim.
- Que criativo! Foi a primeira coisa que te ocorreu, seu seco? – responde.
- Espera só até saborear esta meloa! Vais-me ver a salivar! – diz ele enquanto retira uma meloa de um saco de plastico.
- Que visão agradável! – respondo irónicamente enquanto recebo metade de uma meloa juntamente com uma colher de sobremesa.
- Agradável é esta meloa! Feita de mel, côr de leoa.
- Sério? Vais continuar a sacar uma piada do deserto a cada deixa? – pergunto – Estás muito alegre, que se passa?
- Nasceu o meu sobrinho! O puto é muito giro! Vai ser pianista! – exclama o meu amigo com entusiasmo.
- Como assim nasceu e já vai ser pianista? Foi expelido do ventre directamente para as teclas?
- A minha irmã ouviu Mozart durante nove meses consequtivos! – responde ele no tom mais natural, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo, um raciocínio lógico.
- A minha mãe ouviu Madonna. Não me vês a oferecer uma dança e/ou a virgindade a ninguém… - sarcásticamente respondo.

- Não sejas desagradável! Está uma noite tão bonita! – suplica o meu amigo olhando para a lua.
- Prefiro o pôr-do-sol.
- Já te disse que a essa hora estou a trabalhar.
Ignoro por completo a ultima afirmação do meu amigo.
- Achas que a beleza do pôr-do-sol alivia o trabalho que todos temos de fazer para nos sustentar, ou ter um trabalho faz-nos apreciar o pôr-do-sol com esperança de um dia seguinte?
- A primeira. – responde sem hesitação.
- Porquê?
- Imagina que o pôr-do-sol representa todas as coisas boas da vida: apaixonares-te, realizares os teus sonhos, gargalhadas com os amigos, fazer o que se gosta, ter um filho… estas são as coisas que nos dão vontade de continuar a batalhar na existência que não solicitamos, na dor que não queremos, no sofrimento alheio…
- Que profundo! Acho que encontras-te petróleo! – brinco.
- Então não digas aos Americanos. – responde o meu amigo num tom monocordico.

- Possivelmente eles iriam fazer um buraco em Espanha a achar que estavam no sitio certo…
- E a versão oficial para os media seria “A libertação do povo espanhol da ditadura!” enquanto soldados Americanos queimavam revistas como a “Hola!” com a cara da Letizia.
- Se Portugal fosse uma monarquia, votava na Julia Pinheiro para ser Rainha! – exclamo com alegria.
- Como assim?! A sucessão, por direito, é daquele senhor do bigode, que parece estar sempre engripado, e dos filhos que nada se parecem com ele.
- E está sempre engripado. Ele mora em Bragança! Lá faz sempre frio!
- Isso é um mito! É como a história de que no Algarve está sempre sol.
- Touché! – fico sem assunto.
Uns segundos de silêncio entre nós.
- Olha, - quebra o meu amigo – daqui a pouco tenho de me ir embora. Tenho de ir dar comida ao meus porquinhos da India.
- Não podes alimentá-los depois da meia-noite!!

- Isso são os Mogwais! E eles não existem!
- Tu também lhes chamas “Porquinhos da India” e vocês moram na Bobadela.
- Mas vamos mudar de casa em breve… - responde o meu amigo num tom arrogante.
- Se precisares de ajuda, diz! – ofereço.
- Claro! Obrigado.
- Então vamos! – levanto-me – Trouxeste o saco para o lixo?
- Não… Esqueci!
Encolhemos os ombros em silêncio e fomos embora.
- Adeus D.Clotilde! Até à próxima! – despedimo-nos em coro.